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A liberdade é lilás – A magia dos campos de lavanda da Provence

A memória não esquece aquilo que o coração guardou. Se eu fechar os olhos agora, posso ver os campos lilases e sentir o perfume das lavandas do Sul da França. Faz duas semanas que voltei da Provence. Elas ainda não estavam totalmente maduras, mas já ganhavam a coloração roxa nas pontas, embora ainda verdes perto da raiz. A melhor época para visitar a região é agora, em julho/meados de agosto, quando a paisagem se tinge de lilás e o aroma se solta. Faz lembrar aquela canção do Djavan: “Raio se libertou, clareou, muito mais, se encantou pela cor lilás”.

lavandasHá diversas maneiras de sentir a magia das lavandas: simplesmente parando em um campo e caminhando no meio delas, sentindo o cheiro de alfazema (como se diz no Brasil) e levando alguns raminhos na bolsa, para prolongar o perfume. Uma festa para a visão e o olfato. Isso sem esquecer do poder calmante e curativo dessa flor mágica. E mais: nas feiras livres dos vilarejos, tem sabonetes deliciosos, em peça ou em barra (os famosos de Marseille), velas, sachets, aromatizadores com óleos essenciais. Quer encantar o paladar? Experimente mel de lavanda e sorvete artesanal –também cor de violeta!

lavandasrosane

Foto: Eduardo Amarante

Para chegar perto dessas maravilhas, desembarquei primeiro em Avignon, a cidade murada dos papas, de trem, partindo de Paris. São duas horas e meia a bordo do Ouigo, uma versão do expresso TGV –tão bom quanto ele, só que mais barato (cerca de 25 euros o bilhete). Fiquei a uma hora de carro de Avignon, em Venterol, um bucólico vilarejo de 600 habitantes, cercado por lavandas e vinhedos, pertinho de Nyons, cidade conhecida pelas azeitonas e o azeite fora de série que se produz ali. De carro, imprescindível na região de estradas sinuosas de mão dupla, como nos filmes, o passeio perfeito é percorrer os vilarejos vizinhos, as vinícolas e as feiras cheias de gostosuras. Leia-se queijos, tapenades, azeites, aspargos, cerejas, melões etc etc etc. Tudo, é claro, com uma pausa sem pressa em um dos cafés locais para uma dose de pastis ou uma taça de rosé geladinho.

Valensole é a “capital da lavanda”, onde existe a maior concentração de plantações. Pena que ainda não cheguei lá, mas ficou na saudade. Acredito na máxima de que não se deve esgotar todas as possibilidades numa mesma viagem. É bom sempre deixar algo incrível no imaginário, para fazer na próxima volta. A caminho de Gordes, vilarejo de pedra encarapitado em uma montanha (um dos mais lindos!), é possível ainda visitar o Museu da Lavanda, que conta a história dessas flores e suas mil e uma utilidades na vida e no mundo da cosmética. Claro que o museu tem uma lojinha daquelas que as mulheres adoram. Mas mágico mesmo é colher um buquê de lavandas, sentindo o perfume e o vento no rosto. Coisas que o coração não esquece. Ou comer cereja do pé. Aconteceu comigo, pela primeira vez, e pensei: isso é que é luxo.

sabonetes provence

Quando ir: A lavanda floresce no final de junho e em julho, quando é possível ver os campos ganharem o tom violeta que estampa os cartões postais da região. A colheita geralmente é feita entre 15 de julho e 15 de agosto, sempre em função das temperaturas mais ou menos quentes durante o período de primavera e verão. No início de julho começam as festividades em torno da cultura da lavanda na Provence e elas duram até o primeiro fim de semana de setembro.

Museu da Lavanda: 
Hameau de Coustellet
276 Route de Gordes - D 2 - BP 16 - 84220 CABRIERES D'AVIGNON

Uma caçadora de histórias e maravilhas. Jornalista, escritora, cantora, viajante, cozinheira , aprendiz de dança, sempre em busca da próxima descoberta que desperte os cinco sentidos: o sabor de um novo prato, drink ou vinho (paladar), uma massagem, mergulho ou algo assim relaxante (tato), uma terapia com óleos aromáticos, chás com especiarias ou aquele perfume inédito (olfato), o pôr do sol visto de um rooftop ou as vistas mais incríveis para o mar e as montanhas (visão), e ainda um concerto, show, som ou simplesmente o barulho das ondas, do vento ou dos pássaros (audição). Rosane Queiroz foi editora da revista Marie Claire e da revista de bordo da GOL. Escreve sobre comportamento, gastronomia, sustentabilidade, viagem e lifestyle em publicações como Viagem e Turismo, Vida Simples, Folha de São Paulo, entre outras, além de atuar em produção de conteúdo de texto para livros. É autora de "Musas e Músicas –A mulher por trás da canção" (ed. Tinta Negra), livro reportagem em que conta quem são as musas inspiradoras de canções da MPB com nomes femininos. Na coluna Os Cinco Sentidos, compartilha experiências colhidas em suas andanças e viagens, com os cinco sentidos bem abertos. Mantém o Instagram @oscincosentidos.

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