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fazenda bananal

Fazenda Bananal: quem te viu, quem te vê

A Fazenda Bananal, antiga Fazenda Murycana, em Paraty, resgata seu nome original com proposta sustentável, agricultura e restaurante orgânico

Quem frequentou Paraty nas últimas décadas, certamente visitou ouviu falar da Fazenda Murycana, na estrada Paraty-Cunha. A fazenda histórica servia um bufê de comida caseira, com direito a feijoada e leitão à pururuca, e fez fama como alambique, mesmo sem jamais ter produzido cachaça. Era apenas um rótulo para a bebida comprada de outros produtores.

Quando estive lá, em meados dos anos 90, não curti o astral. O lugar parecia abandonado, a comida nem era essas coisas e havia uma espécie de zoo com animais enjaulados. Triste. Além disso, o fato de ter sido uma fazenda que utilizou mão de obra escrava pesava o clima. Por tudo isso, quando ouvi dizer que ela havia sido vendida e estava sendo restaurada pelos novos proprietários, com uma proposta sustentável, de horta orgânica e tal, fiquei curiosa.

No início de julho, finalmente a Fazenda Bananal reabriu a porteira. Agora, com o nome original de outras eras. Sua história vem do do século 17, quando o intenso movimento na Estrada Real, que ligava o litoral ao Vale do Paraíba, devia-se ao escoamento das riquezas das Minas. A Estrada passava por Paraty, onde iniciou-se o cultivo de açúcar e aguardente. Sua produção era principalmente de cana, cachaça e farinha de mandioca.

Restaurada pelo mesmo grupo que administra a Pousada Literária, em Paraty, e a Pousada Tutabel, em Trancoso, entre outras propriedades, a nova Fazenda tem uma proposta original, de educação ambiental, projetada para ser um modelo de agricultura sustentável. O casarão onde funcionava a sede foi restaurado a partir de referencias em pesquisas documentais e entrevistas, o que permitiu que mantivesse as características originais de uma fazenda do período colonial. Além do centro de visitantes, tem horta orgânica, agrofloresta (com espécies variadas, de cacau a ingá, de couve-manteiga a palmito pupunha, de jussara a jabuticaba). Para ovos, há galinhas, e para a produção de queijo e leite, vacas e cabras. Para deleite dos visitantes, há um restaurante orgânico sensacional.

As mesas do restaurante têm pequenas hortas no centro. O chef é Bertrand Materne, que também conduz o restaurante da Pousada Literária  –o Quintal das Letras –que também é abastecido com os produtos orgânicos da fazenda. O menu é sazonal, com base nos ingredientes locais. Os legumes que acompanham a tilápia na brasa, um dos pratos que provei, podem mudar. Mas talvez o pudim, feito com os ovos capiras das galinhas felizes, continue o mesmo. Não deixe de provar!

Engana-se, contudo, quem acha que vai deixar a propriedade levando uma sacola de produtos orgânicos. Nada na Fazenda Bananal é vendido ou cultivado com proposta comercial. Seu produto, e maior tesouro, é o conhecimento. A ideia é compartilhar experiências sobre sustentabilidade com visitantes e produtores rurais. Assim, a médio prazo, os orgânicos frescos devem chegar em Paraty, mas cultivados e comercializados pelos produtores locais, beneficiando a economia da cidade e a saúde dos moradores e visitantes.

Por tudo isso, o astral do lugar agora é ótimo, e para completar, o dia estava lindo.

Fazenda Bananal
Estrada da Pedra Branca - Paraty
+55 24 3371-0039
Horário de visitas: diariamente, das 9h às 18h

Uma caçadora de histórias e maravilhas. Jornalista, escritora, cantora, viajante, cozinheira , aprendiz de dança, sempre em busca da próxima descoberta que desperte os cinco sentidos: o sabor de um novo prato, drink ou vinho (paladar), uma massagem, mergulho ou algo assim relaxante (tato), uma terapia com óleos aromáticos, chás com especiarias ou aquele perfume inédito (olfato), o pôr do sol visto de um rooftop ou as vistas mais incríveis para o mar e as montanhas (visão), e ainda um concerto, show, som ou simplesmente o barulho das ondas, do vento ou dos pássaros (audição). Rosane Queiroz foi editora da revista Marie Claire e da revista de bordo da GOL. Escreve sobre comportamento, gastronomia, sustentabilidade, viagem e lifestyle em publicações como Viagem e Turismo, Vida Simples, Folha de São Paulo, entre outras, além de atuar em produção de conteúdo de texto para livros. É autora de "Musas e Músicas –A mulher por trás da canção" (ed. Tinta Negra), livro reportagem em que conta quem são as musas inspiradoras de canções da MPB com nomes femininos. Na coluna Os Cinco Sentidos, compartilha experiências colhidas em suas andanças e viagens, com os cinco sentidos bem abertos. Mantém o Instagram @oscincosentidos.

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