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Expedição Katerre – Diário de bordo II

Navegar é preciso! Aqui conto um pouco mais da minha experiência a bordo de um barco na Amazônia, uma aventura que possibilita uma conexão intensa com a Floresta

No post Diário de bordo I narrei os primeiros três dias da Expedição Katerre, que leva pequenos grupos para conhecer a Floresta Amazônica, navegando no Rio Negro. Continuo contando a minha experiência a bordo de um barco na Amazônia e o encontro inesquecível com os botos cor-de-rosa e o projeto da Fundação Almerinda Malaquias

4º dia

Acordamos bem cedinho ancorados na Comunidade Cachoeira e, antes mesmo do café da manhã, havia uma atividade programada: canoagem pelo igapó. Não sabia muito bem o que esperar dessa experiência e foi surpreendente. Roberto, morador da comunidade, nos guiou por entre as árvores com uma habilidade ímpar. A sensação de estar flutuando no meio da Floresta amazônica é única.

Quando voltamos Jacaré Açu, o banquete do café-da-manhã estava servido, sempre com muitas frutas e os pães artesanais feitos no barco. Tivemos uma hora para nos alimentar e depois fizemos uma visita completa a Comunidade Cachoeira. Primeiro, conversamos com as crianças e os professores, entendemos um pouquinho sobre a dinâmica dos estudos no interior da Amazônia, uma questão importante e que enfrenta várias dificuldades. Entramos na casa de um casal de senhores feita cem por cento de madeira e bem simples. Para a minha surpresa, vi que não tinham geladeira, mas televisão sim. Fiquei curiosa com a quantidade de panelas penduradas na parede, quando me explicaram que era sinônimo de status dentro da comunidade. 

Ao término da visita, retornamos ao barco. Durante a navegação, o almoço foi servido, dessa vez um churrasco de peixe muito gostoso no terraço. Atracamos na entrada do Parque Nacional do Jaú, onde caminhamos até uma Sumauma –árvore com mais de 30 metros de altura e 800 anos de vida. Impressionante. Ali perto, foram encontrados petroglifos, ou gravuras rupestres, do período neolítico, que avaliam ser de tribos incas/maias, mas não é certo. Paramos brevemente para aprender e observar as gravuras. Em seguida, ali perto, visitamos as ruínas de Airão Velho, cidade que foi criada durante o ciclo da borracha, por volta de 1870, quando os portugueses extraíam sem controle o leite das seringueiras. O interessante é notar que ali as construções eram imponentes, nada de madeira, tudo importado de Portugal, desde tijolos a azulejos. Mais um contraste marcante com a realidade local.

Retornamos ao barco e nadamos com um dos visuais mais lindos da viagem, apreciando um pôr-do-sol que parecia sair da tela do cinema. 

Era a última noite a bordo e já estávamos tristes porque a expedição estava chegando ao fim. Mas todos, sem dúvida, extasiados depois de quatro dias imersos na Floresta Amazônica. 

5º dia

A navegação foi mais longa no último dia e ancoramos na madrugada, já próximos a Novo Airão. O café-da-manhã foi servido às 7h30 e às 9h fomos ao flutuante do boto cor-de- rosa, um dos pontos turísticos mais visitado da cidade. Até então podíamos avistar os botos do barco, mas sem nenhuma interação com eles. No flutuante é diferente, eles estão no mesmo lugar há 23 anos e é possível interagir com esses animais junto aos instrutores locais. Antes de ter a interação, Marisa nos explicou sobre características do boto. São duas espécies que habitam a região o: boto cor-de-rosa e o tucuxi. Enquanto o cor-de-rosa chega a ter 2,55 metros e 200 kg, o tucuxi cresce apenas 1,50 metros com até 70 kg. A diferença entre eles, além do tamanho e aparência, é a flexibilidade do boto cor-de-rosa, que consegue se curvar muito mais. Isso possibilita a caça em meio a igapós sem problemas. É bacana tocar e acariciar os botos, uma experiência para qualquer idade.

Após a interação com os botos, fomos levados de carro a FAM – Fundação Almerinda Malaquias, em Novo Airão. Lá tivemos a oportunidade de conhecer ainda mais sobre o projeto. Quem começou o projeto foi o Sr Jean-Daniel Vallotton. Ele desembarcou na Amazônia nos anos 80 e ficou chocado com a quantidade de madeira nobre desperdiçada pelos estaleiros que ficavam às margens do Rio Negro. Diante dessa realidade, criou a Fundação com o objetivo de criar um espaço onde ensinava técnica de marcenaria para artesãos, pois essa era a sua especialidade na Suíça. A sua intenção era que os artesãos encontrassem uma fonte de renda para sustentar melhor a família. Eles acabaram trazendo os filhos para a Fundação e com isso nasceu a necessidade de encontrar uma atividade para entreter as crianças. Acabou apaixonando-se por uma brasileira que o ajudou com tudo, e foi ela quem resolveu dar aulas sobre consciência ambiental para as crianças. A princípio, eram crianças pequenas, mas hoje em dia são quatro salas de aula, com capacidade de 80 alunos por turno, totalizando 160. Com relação a marcenaria, algumas mulheres tentaram, mas o trabalho manual é mais difícil para elas. Hoje o que fazem é reciclagem de papel e produção de sabonete. Fiquei impressionada com a organização, a competência e a seriedade do trabalho ali realizado. É de tirar o chapéu.

Após essa visita, alguns alunos fizeram um tour guiado conosco pela cidade. Com idades entre 17 e 18 anos, conduziram sozinhos o passeio e, com eloquência e entusiasmo, nos apresentaram a sua cidade natal. 

A experiência a bordo de um barco na Amazônia é única e inesquecível. O fato de estar desconectada 100% torna a viagem ainda mais especial, proveitosa e relaxante. Com esse grand finale terminamos a Expedição Katerre e começamos uma nova experiência no Mirante do Gavião.

Aqui eu conto tudo sobre esse lugar mágico.

Crédito das imagens: Ruy Tone e Thais Antunes

Fundadora da Original Miles, junto com a irmã Ornella. Formada em Relações Públicas e Comunicação de Empresa pela IULM, em Milão. Diploma em Design de Interiores pela IED. Gastronomia e design sempre foram as suas paixões, além de viagem. É meticulosa e perfeccionista e adora tirar fotos.